Viver no Senhor – Um blog a serviço da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja Católica Apostólica Romana. – – – Sejam Todos Bem-Vindos! Quando neste blog é falado, apresentado algo em defesa da Igreja, contra o protestantismo, é feito com um fundo de tristeza ao ver que existem "cristãos" que se levantam contra a única Igreja edificada pelo Senhor Jesus no mundo. Bom seria se isto não existisse, a grande divisão cristã. Mas os filhos da Igreja têm que defendê-la. Saibam, irmãos(ãs), que o protestantismo, tendo que se sustentar, se manter, se justificar, terá que ser sempre contra a Igreja católica (do contrário não teria mais razão de sê-lo) ainda que seja pela farsa, forjar documentos, aumentar e destorcer fatos (os que são os mais difíceis para se comprovar o contrário pelos cientistas católicos, pois trata-se de algo real, mas modificado, alterado para proveito próprio.) E tentarão sempre atingir a Igreja na sua base: mentiras contra o primado de São Pedro, contra o Papa e sua autoridade, contra o Vaticano, contra a sua legitimidade, etc, etc. São, graças a Deus, muitos sites católicos que derrubam (refutam) estas mentiras, provando o seu contrário, bastando portanto se fazer uma pesquisa séria, por exemplo, com o tema: cai a farsa protestante, refutando o protestantismo, etc. O Espírito Santo jamais abandona sua Igreja. Que saibamos, por este Espírito, amar aos protestantes que não participam destas ações malignas, e aos que se incumbem destas ações, os inimigos da Igreja, que saibamos, ainda que não consigamos amá-los o bastante, ao menos respeitá-los, em sua situação crítica perante Jesus e desejar a eles a conversão e a Salvação de Nosso Senhor Jesus. "Se soubéssemos verdadeiramente o que é o inferno, não o desejaríamos ao pior inimigo".

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O que é o mistério da Santíssima Trindade?

Prof. Felipe Aquino
Quem é Deus?
Antes de tudo é preciso explicar que a palavra “mistério” não quer dizer algo que seja impossível de existir ou de acontecer; mistério é apenas algo que a nossa inteligência não compreende. Se você, por exemplo, não é físico, a teoria da relatividade de Einstein é um mistério para você, mas não é para os físicos. Se você não é biólogo a complexidade da célula, dos cromossomos e dos gens pode ser um mistério, mas não é para aquele que estudou tudo isso.
Ora, Deus é um Mistério para todos nós, porque a Sua grandeza infinita não cabe na nossa inteligência limitada de criatura. Se entendesse Deus, este não seria o verdadeiro Deus. O Criador não pode ser plenamente entendido pela criatura; isto é lógico, é normal e é correto. Depois de tentar de muitos modos desvendar o Mistério da Santíssima Trindade, Santo Agostinho (+430) abdicou: “Deus não é para se compreendido, mas para ser adorado!”
A criatura adora o seu Criador, mesmo sem o compreender perfeitamente. O pecado dos demônios foi não querer adorar a Deus seu Criador; quiseram ser deuses.
O Mistério da Santíssima trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. Só Deus pode-se dar a conhecer, revelando-se como Pai, Filho e Espírito Santo. Foi Jesus sobretudo quem revelou o Pai, Ele como Deus, e o Espírito Santo; isto não foi invenção da Igreja.
A verdade revelada da Santíssima Trindade está nas origens da fé viva da Igreja, principalmente através do Batismo. “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2Cor 13,13; cf. 1Cor 12,4-6; Ef 4,4-6) já pronunciavam os Apóstolos.
Deus é o Infinito de todas as potencialidades que possamos imaginar. Ele é Incriado; não foi feito por ninguém, não teve principio e não terá fim; isto é, é Eterno. A criatura não é eterna, pois um dia ela começou a existir; não era, e passou a ser, porque o Incriado a criou num ato de liberdade plena e de amor. O fato de você existir já é uma grande prova do amor de Deus por você; Ele quis que você existisse e o criou.
Deus é espírito (Jo 4, 24) não é feito de matéria criada, pois foi ele quem criou toda matéria que existe fora do nada; logo não poderia ter sido feito de matéria. Muitos têm dificuldade de entender a existência de um ser não carnal, espiritual, como os Anjos, Deus e a nossa alma; mas eles existem de fato. Ora, você não vê a onda eletromagnética que leva o sinal do rádio e da tv, mas você não duvida de que ela exista. Da mesma forma você não pode ver os anjos e a alma, mas eles existem.
Deus é Perfeitíssimo; Nele não há sombra de defeito ou de erro; Ele não pode se enganar e não pode enganar ninguém; não pode fazer o mal. Ninguém pode acusar Deus de fazer o mal; Ele só pode fazer o bem. Ele pode “permitir” que o mal nos atinja para a nossa correção (Hb 12, 4ss) e mudança de vida; mas Ele nunca pode criar o mal e nos mandar o mal. O mal vem da nossa imperfeição como criatura e do nosso pecado (Rm 6,23).
Deus é Onipotente (Gn 17,1; 28,3; 35,11; 43,14; Ex 6,3; Ap 1,8; 4,8; 11,17; 16,14; 21,22); pode tudo; nada lhe é impossível. “A Deus nada é impossível” (Lc 1, 37) disse o Arcanjo Gabriel a Maria na Anunciação. Não há alguma coisa que você possa imaginar que Deus não possa fazer simplesmente com o seu querer. Basta um pensamento Seu, uma Palavra, e tudo será feito porque Ele tem poder Infinito. Por isso só Deus pode criar, só Ele pode “tirar algo do nada”; só Ele pode chamar à existência um ser que não existia; a partir do nada. Para fazer um bolo a cozinheira precisa da matéria prima; Deus não precisa. A cozinheira “faz” o bolo, Deus “cria” a partir do nada.
Deus também é Onisciente; quer dizer sabe tudo; ninguém consegue esconder nada de Deus; Ele tudo vê. Deus é Onipresente (Sl 139,7; Sb 1,7; Eclo 16,17-18; Jr 23,24; Am 9,2-3; Ef 1,23); está em toda parte, porque é puro espírito. Diz o Salmista: “Senhor, Vós me perscrutais e me conheceis. Sabeis tudo de mim, quando me sento e me levanto… Para onde irei longe de teu Espírito? Para onde fugirei apartado de tua face? Se subir até os céus, Vós estais ali, se descer para o abismo eu Vos encontro lá” (Sl 138,1-7).
E Deus é muito mais; Deus é nosso Pai amoroso com ensinou Jesus. É Amor (1Jo 4,8.) É fonte de vida e santidade (Rm 6,23; Gl 6,8; Ef 1,4-5; 1Ts 4,3; 2Ts 2,13-17). É ilimitado (1Rs 8,27; Jr 23,24; At 7,48-49). É misericordioso (Ex 34,6; 2Cr 30,9; Sl 25,6; 51;1; Is 63,7; Lc 6,36; Rm 11,32; Ef 2,4; Tg 5,11). É o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis (Gn 1,1; Jó 26,13; Sl 33,6; 148,5; Pv 8,22-31; Eclo 24,8; 2Mc 7,28; Jo 1,3; Cl 1,16; Hb 11,3). É o Juiz do universo (1Sm 2,10; 1Cr 16,33; Ez 18,30; Mt 16,27; At 17,31; Rm 2,16; 2Tm 4,1; 1Pd 4,5).
Deus é uno (Dt 32,39; Is 43,10; 44,6-8; Os 13,4; Ml 2,10; 1Cor 8,6; Ef 4,6); não pode haver mais de um Deus simplesmente pelo fato de que se houvesse dois deuses, um deles seria inferior ao outro; e Deus não pode ser inferior a nada; Ele é absoluto.
A Trindade é Una. Não professamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas: “a Trindade consubstancial”, ensinou o II Concílio de Constantinopla em 431 (DS 421). As pessoas divinas não dividem entre si a única divindade, mas cada uma delas é Deus por inteiro: “O Pai é aquilo que é o Filho, o Filho é aquilo que é o Pai, o Espírito Santo é aquilo que são o Pai e o Filho, isto é, um só Deus por natureza” (XI Concílio de Toledo, em 675, DS 530).
“Cada uma das três pessoas é esta realidade, isto é, a substância, a essência ou a natureza divina” (IV Conc. Latrão, em 1215, DS 804).
“Deus é único, mas não solitário” disse o Papa Dâmaso (Fides Damasi, DS 71). “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo” não são simplesmente nomes que designam modalidades do ser divino, pois são realmente distintos entre si: “Aquele que é Pai não é o Filho, e aquele que é o Filho não é o Pai, nem o Espírito Santo é aquele que é o Pai ou o Filho” (XI Conc. Toledo, em 675, DS 530). São distintos entre si por suas relações de origem: “É o Pai que gera, o Filho que é gerado, o Espírito Santo que procede” (IV Conc. Latrão, e, 1215, DS 804). A Unidade divina é Trina.
“Por causa desta unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho” (Conc. Florença, em 1442, DS 1331).
O Símbolo Quicunque de Santo Atanásio assim explicava: “A fé católica é esta: que veneremos o único Deus na Trindade, e a Trindade na unidade, não confundindo as pessoas, nem separando a substância: pois uma é a pessoa do Pai, outra, a do Filho, outra, a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade” (DS 75).
A Santíssima Trindade e inseparável naquilo que são, e da mesma forma o são naquilo que fazem. Mas na única operação divina cada uma delas manifesta o que lhe é próprio na Trindade, sobretudo nas missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo.
Pela graça do Batismo “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19) somos chamados a compartilhar da vida da Santíssima Trindade, aqui na terra, mesmo na obscuridade da fé, e para além da morte, na luz eterna. Esta é a nossa magnífica vocação.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!
Prof. Felipe Aquino
Sobre Prof. Felipe AquinoO Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
Site: Cléofas 
Editado por Henrique Guilhon

Cristo passou pela morte para destruir a nossa morte

Felipe Aquino
Toda a nossa alegria e esperança estão na Ressurreição do Senhor; por isso a Páscoa é a maior festa do calendário litúrgico. A ressurreição do Senhor é a garantia da nossa ressurreição para a vida eterna em Deus, quando então, como nos assegura São Paulo, “Deus será tudo em todos” (1 Cor 15,28).
Cristo passou pela morte para destruir a nossa morte e ressuscitou para nos dar uma nova vida, pois: “Todo aquele que está em Cristo, é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2 Cor 5,17).
Pelo batismo, o Senhor aplica a cada um de nós a salvação que Ele nos conquistou. Por isso, esse é o primeiro sacramento a ser ministrado a cada fiel. Ensinou-nos o apóstolo: “Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo, para que como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do pai, assim nós também vivamos uma vida nova” (Rm 6,3-4).
São Paulo deixou muito clara essa verdade essencial da nossa fé, ao repetir aos colossenses: “Sepultados com Ele no batismo, com Ele também ressuscitastes por vossa fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12).
No batismo nosso homem velho, escravo do pecado e do demônio, foi pregado na cruz santa do Senhor, morreu e, então, saiu da água ressuscitado. Ali foi cancelado “o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. [O Senhor] aboliu-o definitivamente, ao encravá-lo na Cruz” (Cl 2,14). Por isso disse o Apóstolo: “Somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso” (Fl 3,20).
Que maravilha! Nosso corpo será semelhante ao corpo glorioso do Senhor ressuscitado! Que mais poderemos desejar? É em vista disso que São Paulo bradou aos incrédulos: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé” (I Cor 15,14). E mais, disse ele: “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima” (I Cor 15,19).
A ressurreição do Senhor é a garantia da nossa. O apóstolo nos ensinou que “semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso” (1 Cor 15,42b-43). E, quando isto acontecer, disse o Apóstolo: “Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade […] então se cumprirá a palavra da Escritura: “A morte foi tragada pela vitória” (Is 25,8). “Onde está ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (Os 13,14) (1 Cor 15,54-55). Cristo, com a Sua morte, destruiu o aguilhão (o ferrão) da morte, que é o pecado (cf. I Cor 15,56-57). Essa é a essência da nossa fé.
Com toda a diligência os Apóstolos anunciavam ao povo a ressurreição do Senhor. Já em Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, Pedro lhes dizia: “A este Jesus, Deus o ressuscitou: do que todos nós somos testemunhas” (At 2,32). “Vós o matastes crucificando-o por mãos de ímpios. Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte” (At 2,23b-24a). Na casa de Cornélio, Pedro repetiu: “Eles o mataram, suspendendo-o num madeiro. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia, e permitiu que aparecesse (…) às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou” (At 10, 39b-41).
Em vista de tudo isso São Paulo advertiu: “Se, portanto ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,1-3).
Essa é a dimensão nova que a ressurreição do Senhor deve trazer à nossa vida “É hora de deixarmos de lado o homem velho com os seus vícios: ira, maledicência maldade, inveja, ciúme, palavra torpe, soberba, vaidade, luxúria, preguiça, etc., e buscarmos os frutos do Espírito Santo: amor alegria, paz, bondade, paciência, mansidão, confiança, autodomínio” (Gl 5,19-22). E, acima de tudo, como disse o apóstolo: “Revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14).
A Igreja não tem dúvida em afirmar que a Ressurreição de Jesus foi um evento histórico e transcendente. No n.639 o Catecismo afirma: “O mistério da Ressurreição de Cristo é um acontecimento real que teve manifestações historicamente constatadas, como atesta o Novo Testamento. Já S. Paulo escrevia aos Coríntios pelo ano de 56: “Eu vos transmiti… o que eu mesmo recebi: Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Kefas, e depois aos Doze” (1Cor 15,3-4). O apóstolo fala aqui da viva tradição da Ressurreição, que ficou conhecendo após sua conversão às portas de Damasco.
O primeiro acontecimento da manhã do Domingo de Páscoa foi a descoberta do sepulcro vazio (cf. Mc 16, 1-8). Ele foi a base de toda a ação e pregação dos Apóstolos e foi muito bem registrada por eles. São João afirma: “O que vimos, ouvimos e as nossas mãos apalparam isto atestamos” (1 Jo 1,1-2). Jesus ressuscitado apareceu a Madalena (Jo 20, 19-23); aos discípulos de Emaús (Lc 24,13-25), aos Apóstolos no Cenáculo, com Tomé ausente (Jo 20,19-23); e depois, com Tomé presente (Jo 20,24-29); no Lago de Genezaré (Jo 21,1-24); no Monte na Galiléia (Mt 28,16-20); segundo S. Paulo “apareceu a mais de 500 pessoas” (1 Cor 15,6) e a Tiago (1 Cor 15,7).
S. Paulo atesta que Ele “…ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e foi visto por Khefas, e depois pelos Onze; depois foi visto por mais de quinhentos irmãos duma só vez, dos quais a maioria vive ainda hoje e alguns já adormeceram; depois foi visto por Tiago e, em seguida, por todos os Apóstolos; e, por último, depois de todos foi também visto por mim como por um aborto” (1 Cor 15, 3-8).
“Deus ressuscitou esse Jesus, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2, 32). “Saiba com certeza toda a Casa de Israel: Deus o constituiu Senhor (Kýrios) e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2, 36). “Cristo morreu e reviveu para ser o Senhor dos mortos e dos vivos” (Rm 14, 9). No Apocalipse, João arremata: “Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos, e tenho as chaves da Morte e da região dos mortos” (Ap 1, 17s).
A primeira experiência dos Apóstolos com Jesus ressuscitado, foi marcante e inesquecível: “A paz esteja convosco!” “Vede minhas mãos e meus pés: sou eu”! “Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Apresentaram-lhe um pedaço de peixe assado. Tomou-o então e comeu-o diante deles” (Lc 24, 34ss).
Os vinte longos séculos do Cristianismo, repletos de êxito e de glória, foram baseados na verdade da Ressurreição de Jesus. Afirmar que o Cristianismo nasceu e cresceu em cima de uma mentira e fraude seria supor um milagre ainda maior do que a própria Ressurreição do Senhor.
Por Cristo ressuscitado milhares de fiéis enfrentaram a morte diante da perseguição dos judeus e dos romanos. Multidões foram para o deserto para viver uma vida de penitência e oração; multidões de homens e mulheres abdicaram de construir família para servir ao Senhor ressuscitado. Sua Igreja já sobrevive por 2000 anos, vencendo todas as perseguições. Já são 266 Papas, 21 Concílios Ecumênicos, e hoje são cerca de 4 mil bispos e 416 mil sacerdotes e 2 bilhões de fiéis. E não se trata de gente ignorante ou alienada; muito ao contrário, são universitários, mestres, doutores. “Eis que estou convosco todos os dias [Ressuscitado!] até o fim do mundo!” (Mt 28,20).
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Prof. Felipe Aquino
Sobre Prof. Felipe AquinoO Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
Título Original: Ressuscitou!
Site: Cléofas
Editado por Henrique Guilhon

A Idade Média – Uma época obscura?

Web
Montfort
Fides, si non cogitatur, nulla est.
(A fé, sem a razão, é nula.)
Santo Agostinho, 354-430 d.C.
São muitas as vozes, amplificadas pelos meios modernos de propaganda, que defendem que a Igreja Católica Apostólica Romana propaga o obscurantismo e impede o desenvolvimento científico. Recentemente, esta acusação tem sido feita com maior freqüência devido às condenações pela Igreja ao uso de células-tronco retiradas de embriões humanos e à terapia transgênica. A Igreja, se bem que em si e por sua natureza tenha por fim a salvação das almas e a felicidade eterna, é entretanto, na própria esfera das coisas humanas, a fonte de tantas e tais vantagens, que as não poderia proporcionar mais numerosas e maiores mesmo quando tivesse sido fundada sobretudo e diretamente em mira a segurar a felicidade desta vida [i]. Esta afirmação poderia ser demonstrada de diversas maneiras, em particular, este artigo traz argumentos que mostram a participação fundamental da Igreja na institucionalização e organização da Universidade, instituição que tem sido, reconhecidamente, uma das criações mais fecundas do Ocidente medieval, na qual os doutores escolásticos transmitiram o amor à verdade, que precisava ser descoberta onde estivesse, e no desenvolvimento científico, onde numerosos integrantes do corpo eclesiástico deram significativas contribuições.
A Universidade medieval não tem precedentes históricos tanto por sua estrutura institucional quanto por seu papel social e intelectual [ii][iii]. Poucas foram as escolas que se avizinharam da instituição universitária. É verdade que Platão traçou um programa de formação intelectual no Livro VII de sua República. Nessa República ideal, Platão supõe um Estado que patrocine e controle os estudos, mas na realidade, nenhum Estado concretizou, de fato, essa aspiração. No mundo helênico aparecem escolas públicas, mas todas isoladas. Em Roma, somente Adriano pensou estabelecer um Ateneu que se parecia muito a uma Universidade. Esse projeto, entretanto, somente se realizou e, assim mesmo, efemeramente, no tempo de Cassiodoro e do Papa Agapito I no século VI [iii].
As primeiras Universidades apareceram em Bolonha, Paris, Montpellier e Oxford nos primeiros anos do século XIII. Derivadas de escolas preexistentes, para além da diversidade das instituições, elas tinham em comum serem organismos autônomos de natureza corporativa [iv]. Neste aspecto, foi principalmente do papado, representado pelos grandes papas teólogos e canonistas da primeira metade do século XIII, que o apoio foi decisivo [ii]. Em todos os lugares o papado garantiu a autonomia universitária. Em 1214 foram outorgados os privilégios pontificais da Universidade de Oxford. Em Montpellier, onde prossegue o desenvolvimento contínuo das escolas de medicina desde os anos de 1130, a transformação em universidade foi conseguida em 1220 graças aos estatutos outorgados por um legado pontifical. Ademais, um legado pontifical outorgou à jovem universitas magistrorum et scolarium Parisiensium seus primeiros estatutos, confirmados solenemente pela bula pontifical Parens Scientiarum, de 1231 [ii].
Ser autônomo significava ser mestre de seu recrutamento, poder dotar-se de estatuto, poder impor a seus membros o respeito a uma determinada disciplina coletiva e a regras de cooperação mútua, poder, enfim, organizar livremente aquilo que era a própria razão de ser da cooperação universitária, quer dizer, o ensino, os programas, a duração dos estudos, as modalidades dos exames que sancionavam esses estudos e a colação dos graus que coroavam o êxito nos ditos exames [iv]. O título de doctor ou a licentia docendi, conferido pelas universidades medievais, não tem antecedente na Antigüidade clássica [iii].
A gratuidade do ensino e dos graus era um princípio sagrado no século XIII [iii]. As primeiras derrogações vieram de Oxford, onde para fazer viver os mestres, uma ajuda monetária foi consentida; em Paris, em 1281, o Papa Martinho IV sancionou a existência de uma caixa comum, para a qual os escolares contribuíam semanalmente.
O leque social nos meios universitários era extremamente largo [v]. Os nobres nunca foram muito numerosos nas universidades medievais; freqüentemente menos de 5% e, no máximo, 10 a 15%, em casos excepcionais. Os estudos universitários não condiziam ainda nem ao tipo de cultura nem ao tipo de carreira a que esse grupo social se dedicava preferencialmente. É bem provável que o maior número dos estudantes e dos graduados viesse das “classes médias”, sobretudo urbanas (notários, comerciantes, artesãos abastados etc) [ii]. Muitas matrículas assinalam a existência de pauperes studentes, reconhecíveis por serem mais ou menos dispensados do pagamento dos direitos universitários. Eram muito numerosos nas universidades alemãs. De uma maneira geral, os estudantes pobres eram particularmente numerosos nas universidades em que as faculdades de Artes haviam permanecido importantes e nas com característica eclesiástica. Os estudos de artes eram relativamente breves, pouco dispendiosos e podiam dar acesso a ofícios intelectuais como o de mestre-escola. Do papado, os universitários haviam também recebido privilégios apreciáveis em matéria beneficial: podiam receber benefícios eclesiásticos e gozar de seus rendimentos durante cinco ou sete anos sem residir no local e sem receber as ordens exigidas [v]. O Chanceler da Universidade de Paris, Jean Gerson (1363 – 1429), filho primogênito de uma família camponesa de doze filhos e nascido na pequena Vila Ardennais, havia começado seus estudos no mosteiro Saint-Remi em Reims. Ainda no século XIX, o monge agostiniano Gregor Mendel (1822–1884), cujo trabalho explicou a hereditariedade e fundou a Genética, era filho de camponeses pobres em Brunn, Morávia, para citar integrantes do corpo eclesiástico que deram significativas contribuições ao desenvolvimento científico.
Além disso, pelo fato do estatuto jurídico dos estudantes e dos mestres torná-los, por princípio, privilegiados, tornar-se estudante significava poder furtar-se ao imposto e às formas mais rigorosas da justiça ordinária, significava poder pleitear proventos dos benefícios eclesiásticos sem obrigação de residência e tomar assento sob a salvaguarda das mais altas autoridades, laicas ou eclesiásticas [iv].
Em todas as faculdades, o ensino era dominado por dois tipos fundamentais de exercícios: a aula (lectio) e o debate (disputatio). A primeira visava a fazer conhecer ao estudante as “autoridades” e, através delas, permitir-lhe dominar o conjunto da disciplina que estudava; a segunda era, ao mesmo tempo, para o professor, o meio de aprofundar mais livremente certas questões do que num comentário de texto e, para o estudante, a ocasião de pôr em prática os princípios da Dialética e de avaliar a precisão de seu raciocínio [v].
As aulas distinguiam-se entre ordinárias e extraordinárias. As aulas ordinárias eram dadas pelos próprios mestres sobre os livros importantes do programa, no início da manhã; as aulas extraordinárias, dadas por bacharéis, tinham lugar no final da manhã ou à tarde. Nos dois casos, o método era o mesmo: o professor, após uma aula de introdução, lia o texto a ser explicado, interrompendo-se em alguns trechos para um comentário; os estudantes acompanhavam em seu próprio exemplar do texto e tomavam notas.
O texto que se analisa é designado por lectio. Como mostra Pacheco [vi], a busca do entendimento do texto, que se escolhe dentre a já rica pluralidade de fontes e autores, cristãos ou não, inclui a tentativa da descoberta da intentio auctoris e o comentário analítico rigoroso. Acrescenta Pinekaers [vii], a escolástica, estruturada a partir da dimensão interpretativa do texto, assume características especiais: é abstrata, como resultado de um pensamento liberto das conotações acidentais; é analítica, pois a palavra significa a essência; é aistórica, situando-se ao nível do essencial, num presente independente do passado e do futuro; é impessoal, já que nunca usa a primeira pessoa; nunca é subjetiva, mas sempre aponta para o universal.
Os debates, por sua vez, eram um tipo de exercício característico da universidade medieval e constituíam a parte mais significativa do ensino nela praticado. Como salienta Pieper [viii]:
“Houve na universidade medieval a instituição regular da “disputatio”, que, por princípio, não recusava nenhum argumento e nenhum contendor, prática que obrigava, assim, à consideração temática sob um ângulo universal”.
Nas palavras de São Tomás de Aquino, a existência dos debates explicava-se porque:
“Assim como um juiz não pode sentenciar em um Juízo até haver escutado as duas partes, assim o homem que estuda a filosofia julga melhor se observa o choque das idéias, como o de dois adversários em luta” [iii].
Durante suas duas estadas em Paris, São Tomás organizou pelo menos 528 debates, ou seja, mais ou menos dois por semana [v]. Não era suficiente escutar a exposição das aulas por um mestre; era essencial que as idéias se examinassem criticamente nos debates [ix]. Os mais freqüentes eram os “debates ordinários”: o mestre escolhia um tema “quaestio”, presidia a sessão e encarregava um de seus bacharéis de apresentar a “questão” e de responder às objeções dos discípulos, pronto para ajudá-lo ou retomá-lo em caso de necessidade; o público podia compreender, além dos estudantes e dos bacharéis de aula do mestre, estranhos vindos de outras classes. No dia seguinte ao do debate, o mestre apresentava a síntese da discussão e a esclarecia. Uma ou duas vezes por ano, cada mestre devia também organizar um debate de quolibet, onde qualquer tema podia ser abordado e ao qual assistiam todos os membros da faculdade.
As leituras, comentários de textos e a participação nos debates habituavam os estudantes a se exprimir tanto em latim quanto em vernáculo e a posicionar-se em público, a enfrentar e, se possível, vencer, pela argumentação, os eventuais adversários. Seus estudos de lógica e de retórica lhes teriam dado a arte do raciocínio correto e da demonstração convincente. Um longo exercício da memória lhes permitia convocar, sem se referir a notas escritas, múltiplas citações de autoridades que fundamentavam seu saber. Junte-se a isso o fato de, na maior parte das universidades, os estudantes e os jovens mestres em artes poderem tomar a palavra na deliberação das diversas assembléias e conselhos, exercer funções eletivas, representar a universidade diante de autoridades exteriores. Pela importância dada a todas essas atividades, a universidade certamente contribuiu para a formação de homens de saber, dotando-os, não apenas de uma certa bagagem intelectual, mas de saber-fazer e de desembaraço social e politicamente úteis [iv].
Ademais, a Idade Média era atenta às finalidades sociais da universidade. Com efeito, repugnava-se, então, não apenas a idéia de uma cultura desinteressada, mas, também, aquela de um saber cujo detentor utilizasse a seu modo e exclusivamente para seu próprio benefício pessoal [iv]. “Deve-se aprender apenas para a própria edificação ou para ser útil aos outros; o saber pelo saber é apenas uma vergonhosa curiosidade” [x], já havia dito São Bernardo (1090-1153).
Há que se distinguir desde logo o século XIV, que, em muitos aspectos, especialmente em Paris e Oxford, aparece como um prolongamento do século XIII e o século XV onde as dificuldades sensivelmente se acumulam sobre as instituições devido às mudanças ligadas à emergência do Estado moderno [iv]. As universidades modernas, a partir da Renascença, são criações de príncipes e do Estado, que as absorve cada vez mais [ii][xi]. Os estatutos que elas receberam desde sua fundação, sempre as caracterizando como instituições autônomas, deixam largas possibilidades de controle e de intervenção aos poderes externos e seus representantes. A mais óbvia foi freqüentemente que os professores (ou pelo menos alguns dentre eles) seriam, dali por diante, pagos pelo príncipe que, como retorno, exerceria o direito de responsabilizar-se por suas nomeações. No século XV, vê-se, na França, onde o reforço do poder real foi particularmente precoce, as velhas universidades (Paris, Orléans, Toulouse) passarem para a tutela de reis, de seus Parlamentos e de seus oficiais. Agora, as universidades estavam no quadro das instituições nacionais. O lento abandono de determinados tipos de exercícios (por exemplo, os debates) é, sobretudo no século XV, uma realidade incontestável [iv]. Talvez o mais inquietante seja o fato de os graus parecerem ter sido cada vez mais fáceis de serem obtidos, a julgar-se pelas taxas de êxito crescente que se percebe. De 1600 a 1800, as taxas de êxito passam em Oxford, (bacharelado em Artes) de 35% para 58%; em Franeker (Países Baixos) de 6% para 71% [ii].
O absenteísmo professoral, associado à falta de assiduidade dos alunos, esvaziava aulas e disputas. Para tomar o caso da França, se as principais universidades – Paris, Toulouse ou Montpellier – preservavam um determinado nível de exigência, pequenas universidades provincianas – Avignon, Orange, Orléans, Nantes, Caen, Reims – especializavam-se vergonhosamente na venda de graus a preços de liquidação e sem exame sério. As dispensas de todo tipo eram facilmente conseguidas. O próprio Estado resignava-se a isso, e tanto que, em 1682, autorizou os alunos de Direito com mais de 24 anos, “em virtude da idade”, a conseguir sua licença em seis meses (ao invés dos cinco anos exigidos) [xii].
Na Idade Clássica, até o final do século XVIII, a atividade das Universidades não mais resume toda a vida intelectual. Os reformadores do Iluminismo advogam a sua extinção como resíduos de uma inútil tradição medieval e propunham substituí-las por escolas especializadas [iii]. A Universidade, tão cara a Idade Média, sofria agora o perigo dos chamados “sábios” Iluministas. Os princípios defendidos nessa época são de que o ensino dever-se-ia ficar adstrito a pequenos grupos privilegiados. Voltaire, escrevendo a La Chalotais , concordava em que este tinha razão de proscrever os estudos entre os lavradores. E, numa carta a Damilaville, no ano de 1766, dizia claramente que seria conveniente que o povo fosse guiado e não instruído, afirmando: “Parece-me essencial que haja pobres ignorantes. … Não é preciso instruir o artesão, mas sim o burguês. … Se o povo se mete a raciocinar, tudo estará perdido” [xiii].
Além de instituir e fomentar o ensino universitário, a Igreja Católica desenvolveu e difundiu o saber através de seus clérigos. Integrantes do corpo eclesiástico formaram cientistas notórios como Descartes, que estudou no Colégio Jesuíta La Flèche; desenvolveram novas teorias; inventaram máquinas, aparatos; escreveram tratados, estudos, manuais; demonstraram novos princípios em diversos campos da Ciência e das Artes e levaram suas descobertas ao Oriente e às Américas.
A Idade Média viu surgir teorias valorosas, cujos méritos, muitas vezes, foram outorgados a Idade Moderna. A partir de estudos de tratados medievais sobre dinâmica e cinemática, Pierre Duhem argumenta que as idéias essenciais dos princípios básicos da física de Galileu (1564–1642) já estavam presentes no século XIV. A teoria do ímpetus de Jean Buridan (?1300–1358) é vista como um presságio da lei de inércia, que está no cerne da Revolução Científica dos séculos XVI e XVII, e as teses de Nicole Oresme (1323–1382) como uma antecipação da lei da queda dos corpos de Galileu e da geometria analítica de Descartes [xiv].
A participação significativa de integrantes do corpo eclesiástico no desenvolvimento científico foi reconhecida por cientistas notórios. O próprio Galileu, quando em 1611 esteve com Jesuítas em Roma, escreveu a um de seus amigos:
“Estive com os padres Jesuítas e me entretive durante muito tempo com o padre Clavius, com dois outros sacerdotes muito versados na nossa ciência e com os seus alunos também…percebi que eles verificaram a existência real dos novos planetas e que, há dois meses, eles não cessam as suas observações; nós as comparamos às minhas e umas concordam perfeitamente com as outras” [xv].
O trabalho do P. Leon Battista Alberti (1404-1472) é central no desenvolvimento da perspectiva. A palavra “perspectiva” designava, na Idade Média, a ciência da óptica (perspectiva communis). No seu tratado “Sobre a Pintura” de 1435, P. Alberti expõe a perspectiva expressamente no plano matemático e se baseia em conhecimentos sólidos de geometria e óptica: é pela análise dos triângulos e outras figuras formadas pelos raios visuais que convém estudar a representação do espaço. Daí a definição: “o quadro é uma interseção plana da pirâmide visual”. A perspectiva lhe fornece, em particular, os meios de “geometrizar” corretamente as projeções mais importantes das linhas retas (verticais, ortogonais ao plano do quadro etc) [xvi].
Para a história do pensamento científico, o fato é significativo. Como salienta Panofsky [xvii] “não é um exagero afirmar que, utilizado desta maneira, esse motivo (…) representa de algum modo o primeiro exemplo de um sistema de coordenadas que, na esfera da concretude artística, torna visível materialmente o ‘espaço sistemático’ moderno, antes mesmo que o pensamento abstrato matemático o tivesse postulado”. P. Alberti sintetizou e conceituou essas conquistas.
Na Idade Média essa área de estudos era muito ativa; através do que hoje veríamos como passos vacilantes, preparava-se uma síntese cada vez mais ajustada entre a análise geométrica e o estudo da visão dos objetos. De modo direto ou indireto, P. Alberti e seus contemporâneos conheceram esta tradição medieval. Não só o tratado de Jonh Pecham teve ampla difusão, como Blaise de Parma escrevera, por volta de 1390, um tratado de óptica (Quaestiones Perspectivae). Mais ainda, na década de 1420 circulara um tratado, Della Prospettiva, cujo autor foi Paolo Toscanelli. Como conclui Pierre Thuillier 16: “as inovações do século XV devem ser compreendidas com relação a um plano de fundo teórico muito rico. É impossível, em todo caso, aceitar-se a lenda (ainda muito difundida) do ‘obscurantismo medieval’”.
Contudo, o primeiro corpo de católicos eruditos que se tornou preeminente em ciências seculares foram os Jesuítas. A Sociedade de Jesus foi fundada em 1540 por Santo Inácio de Loyola. Os ‘homens do papa’, como eram conhecidos pela sua defesa e propagação da autoridade e do ensinamento papal, deram expressivas contribuições a inúmeras áreas do saber.
Foi o P. Christopher Scheiner (1573–1650), na sua obra Oculus (1619), o primeiro a provar a importância fundamental da retina na visão. Em 1630 publicou Rosa Ursina, sua principal obra. Nestes livros, P. Scheiner descreve algumas de suas descobertas e experimentos tais como a determinação do raio de curvatura da córnea e a descoberta da saída nasal do nervo óptico [xviii][xix]. Este mesmo padre fornecera provas concludentes sobre a faculdade de acomodação do olho, e se celebrizara pela descoberta das manchas solares e pela invenção do pantógrafo [xx]. Outro jesuíta, o P. Francesco Lana-Terzi (1631–1687) criara um alfabeto para surdos-mudos e um método de leitura para cegos.
Na Matemática, o trabalho do P. Jesuíta belga Gregory Saint Vincent (1584–1667) Opus Geometricum Quadraturae Circuli et Sectionum Coni (1647) fez com que Leibniz o reconhecesse, ao lado de Fermat e Descartes, como um dos que estabeleceram as bases da geometria analítica [xxi]. Pode-se citar também o P. Andrea Tacquet (1612–1660) cujas obras, dentre elas seu principal trabalho Cylindricorum et Annularium (1651), influenciaram Pascal. Neste mesmo século, o P. Girolamo Saccheri (1667–1733) lançava os fundamentos da primeira geometria não euclidiana em Euclides ab Omni Naevo Vindicatus (1733), obra que influenciou Riemann, Lobachevsky, Bolyai e Gauss.
O P. Vincenzo Riccati (1707–1775), por sua vez, estudou equações diferenciais e integrais. Descobridor das funções hiperbólicas, ele encontrou as fórmulas padrão de adição para estas funções e sua relação com a função exponencial. Lambert é freqüentemente citado como o primeiro a introduzir as funções hiperbólicas, contudo, sabe-se que ele não o fez até 1770, enquanto o trabalho do P. Riccati foi publicado entre 1757 e 1767. Seu livro Institutiones é reconhecido como o primeiro tratado extensivo sobre cálculo integral.
Na Física, foram importantes as contribuições do P. Jesuíta Francesco Grimaldi (1613–1663). P. Grimaldi descobriu a difração da luz e expôs a teoria ondulatória de sua propagação na obra Physicomathesis de Lumine (1666). Newton trata das proposições sobre difração da luz de Grimaldi na Parte III de sua Opticks (1704).
Não se deve deixar de mencionar as contribuições do P. Jesuíta Rogério Boscovich (1711–1787) ao desenvolvimento teórico sobre a estrutura da matéria, expostas em sua Theoria Philosophae Naturalis, a qual traz esboços da teoria sobre quarks [xxii]. Nas palavras de Thomson [xxiii]:
“A natureza da coesão foi mais adequadamente explicada por Boscovich do que qualquer outro filósofo. Esta é a mais bela e satisfatória parte de sua teoria”.
Também foram importantes as contribuições dos Jesuítas à Astronomia e à Geofísica. Desde 1824 até hoje, 73 observatórios ao redor do mundo são operados por Jesuítas. Dentre os mais importantes e mais conhecidos estão o do Collegio Romano (Roma), Stonyhurst (Inglaterra), Kalocsa (Hungria), Ebro (Espanha), Georgetown (Washington), Havana (Cuba), Zikawei (China), Manila (Filipinas), Tananarive (Madagascar), Riverview (Austrália) e Calcutá (Índia) [xxiv]. Neste aspecto, não se deve deixar de citar as contribuições do P. Ângelo Secchi (1818–1878), em particular, seus trabalhos sobre classificação espectral de estrelas. Ele foi o primeiro a fazer uso sistemático desta técnica na classificação de estrelas, o que o fez ser chamado de “pai da Astrofísica”. Na Itália, fundou a Sociedade Italiana de Espectroscopistas, dedicada a estudos espectroscópicos do Sol. Destacam-se, do mesmo modo, as contribuições dos Jesuítas à Meteorologia, especialmente no estudo e previsão de furacões tropicais [xxv].
Já no século XX, o P. Jesuíta Georges Lamaître (1894-1966) apresentou as bases da teoria da expansão do Universo em um artigo publicado nos Anais da Sociedade Científica de Bruxelas, em 1927 [xxvi]. Sua teoria foi confirmada em 1964, quando Arno Penzias e Robert Wilson descobriram a radiação de fundo, cuja existência Gamow havia previsto como uma relíquia da explosão inicial. Por seu trabalho, uma comissão internacional lhe outorgou o Prêmio Francqui, em 1934, o qual recebeu das mãos de Einstein.
Tampouco as extraordinárias contribuições dos Jesuítas se limitaram à ciência. Em 1773, contavam com 350 teatros na Europa. Fundaram o primeiro teatro no continente norte-americano – precisamente em Quebec, em 1640. Ensinaram a França a fazer porcelana. O guarda-chuva, a baunilha, o ruibarbo, a camélia e o quinino foram inovações jesuíticas na Europa.
Menos de cem anos depois da fundação da Sociedade de Jesus, os Jesuítas se tornaram os primeiros europeus a penetrarem no Tibet e depois seguirem dali para a China. O P. Jesuíta Matteo Ricci (1552–1610) provou que a Catai de Marco Pólo era idêntica à China, e não um país diferente, e publicou os primeiros mapas da China disponíveis no Ocidente. Na China, este mesmo padre redigiu um tratado de geometria euclidiana em chinês e ensinou-lhes a arte de fabricar relógios de sol. Pelos seus serviços, foi declarado mandarim oficial no palácio do imperador em Pequim. No Japão, o P. Jesuíta português Luis De Almeida fundou, em 1557, o primeiro hospital no Oriente, dentro do qual foi fundada a primeira escola Médico-Cirúrgica [xxvii]. P. Almeida manda construir também um orfanato com vacaria anexa, visando, deste modo, reduzir a mortalidade infantil na região [xxviii].
No Brasil, os Padres Jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta foram exemplos de um prodigioso sacrifício e abnegação a serviço daqueles da recém descoberta Terra de Santa Cruz. Fundaram colégios, ensinaram aos índios a arte de construir moradias com proporção e alinhamento, fazer móveis, plantar e cultivar a terra. Ainda não estava concluída a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda e já a escola estava franqueada aos meninos da nova Cidade do Salvador [xxix]. A criação da escola sempre contemporânea da própria cidade, ou a ela precedendo, como aconteceu em São Paulo, de modo a não se encontrar povoação alguma de certa importância que não tivesse o seu colégio, é um fato característico da missão jesuítica na América Latina.
Foi na escola de Piratininga, inaugurada no dia da Conversão de São Paulo, donde veio ao colégio o nome de São Paulo, derivando-se mais tarde a denominação para a cidade e da cidade para o Estado que P. Anchieta passou, por vezes, noites inteiras a tirar cópias, para os discípulos poderem, a falta de livros, estudar as lições [xxx].
P. Anchieta cultivou com esmero no Brasil as línguas portuguesa e tupi. Deixou-nos sobre esta última a Arte da Língua mais Usada na Costa do Brasil, bem como em latim a Ars Grammatica Linguæ Brasilicæ e o Dictionarium Linguæ Brasilicæ. No mais, a lista de alunos célebres dos Jesuítas no Brasil inclui Gregório de Mattos, Cláudio Manuel da Costa, José Basílio da Gama e P. Antonio Vieira, que, tendo vindo para o Brasil na idade de oito anos, recebeu sua formação literária e científica dos Jesuítas no Colégio de Jesus da Bahia. Também podem ser incluídos os historiadores Francisco de Souza e Pedro Taques, cronista dos bandeirantes, discípulos da Companhia no Rio de Janeiro 29.
Pelo mencionado, a Igreja, no seu magistério, empreendeu-o não somente a salvação das almas e para a felicidade eterna, mas de modo excepcional na esfera das coisas humanas em mira a segurar ainda a felicidade desta vida. Deste modo, por tudo que fez e defende, não se deve obscurecer com afirmações infundadas e distorções históricas absurdas o brilho da contribuição da Igreja Católica ao ensino e ao desenvolvimento científico. Contudo, como reconhece a própria Igreja, esta não se surpreende de ser, à semelhança do seu divino fundador, “objeto de contradição”; mas, nem por isso deixa de proclamar, com humilde firmeza, a lei moral toda, tanto a natural como a evangélica.
Rogério Côrte Sassonia 11/set./2005.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[i]. Leão XIII, PAPA; Encíclica Immortale Dei – Sobre a Constituição Cristã dos Estados (1885); Documentos Pontifícios – 14, Vozes: Petrópolis, RJ, 1960.
[ii]. Charle, C.; Verger, J.; História das Universidades; Tradução: Elcio Fernandes; Editora da Unesp: São Paulo, 1996.
[iii]. Loureiro, M. A. S. (coord.); História das Universidades, Estrela Alfa: São Paulo, s/d.
[iv]. Verger, J.; Homens e Saber na Idade Média, Tradução: Carlota Boto; EDUSC: Bauru, SP, 1999.
[v]. Verger, J.; As Univrsidades na Idade Média, Tradução: Fúlvia M. L. Moretto; Editora da Unesp: São Paulo, 1990.
[vi]. Pacheco, M. C. M.; A Filosofia Medieval e a Questão da Interpretação – A Palavra e os Textos – entre a Letra e Espírito, http://www.hottopos.com.br/mirand9/candid2.htm, acessado em 30/08/2005.
[vii]. Pinekaers, S.; La Langage Scolastique, Langage Rationnel apud Malmberg, B.; Histoire de la Linguistique de Srinner à Saussure, Paris, P.U.F., 1961.
[viii]. Pieper, J.; Abertura para o Todo: a Chance da Universidade, Trad.: Gilda N. M. de Barros e Luiz Jean Lauand, http://www.hottopos.com.br/mirand9/abertu.htm, acessado em 30/08/2005.
[ix]. Weisheipl, J. A.; Tomás de Aquino – Vida, Obras y Douctrina, Pamplona, Eunsa, 1994, p.235 apud São Tomás de Aquino, “Sobre o Ensino (De Magistro) Os Sete Pecados Capitais”, Trad.: Luiz Jean Lauand; Martins Fontes: São Paulo, 2001.
[x]. “Sunt namque qui scire volunt eo fine tantum, ut sciant: et turpis curiositas est” – Sancti Bernardi Opera, J. Leclerq, C. H. Talbot, H. Rochais (eds.), vol. II, Roma, 1958, p. 5 apud Verger, J.; Homens e Saber na Idade Média, Tradução: Carlota Boto; EDUSC: Bauru, SP, 1999.
[xi]. Corrêia, A.; “A Universidade Medieval” Revista da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Bento1941, 2, 13.
[xii]. Julia, D.; Revel, J.; Chartier, R. (eds.); Les Universités Européennes du XVe au XVIIIe Siècles. Histoire Sociale des Populations Étudiantes, Ed. de l’EHESS: Paris, 1986-1989, p. 110-51 apud Charle, C.; Verger, J.; História das Universidades; Tradução: Elcio Fernandes; Editora da Unesp: São Paulo, 1996.
[xiii]. Besterman, T. (ed.); Voltaire: Correpondance (avril 1765 – juin 1767), vol. VIII, Gallimard: França, 1983, p. 422.
[xiv]. Duhem, P.; Le Système du Monde. Histoire des Doctrines Cosmologiques de Platon a Copernic, Hermann: Paris, 1913-59 apud Évora, F. R. R.; “Philoponos e Avempace: a Origem do Argumento galileano sobre o Vazio” em Évora, F. R. R. (ed.); Espaço e Tempo, Campinas: UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1995, cap. 5.
[xv]. Miller, R. F.; Os Jesuítas e o Segredo de seu Poder, Trad.: Álvaro Franco; Barcellos, Bertaso & Cia.: Porto Alegre, 1935.
[xvi]. Thuillier, P.; De Arquimedes a Einstein: a Face Oculta da Invenção Científica, Trad. Maria Inês Duque-Estrada, Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 1994.
[xvii]. Panofsky, E.; La Perspective comme Forme Symbolique, Minuit, 1975, p. 125-6 apud Thuillier, P.; De Arquimedes a Einstein: a Face Oculta da Invenção Científica, Trad. Maria Inês Duque-Estrada, Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 1994.
[xviii]. Daxecker, F.; Further-Studies by Scheiner, Chrispoph Concerning the Optics of the Eye, Doc. Ophthalmol. 1994, 86, 2, 153.
[xix]. Daxecker, F.; Scheiner, Christoph Eye Studies, Doc. Ophthalmol. 1992, 81, 1, 27.
[xx]. Ouwendijk, G.; The Physicist and Astronomer Christopher Scheiner: Biography, Letters, Works,Renaissance Quarterly 2005, 58, 1, 294.
[xxi]. McDonnel, S. J., Joseph; Jesuit Geometers, Institute of Jesuit Sources: St. Louis, 1989 apud Smolarski, S. J., Dennis C.; The Jesuit Ratio Studiorum, Christopher Clavius, and the Study of Mathematical Sciences in Universities,Science in Context 2002, 15, 3, 447.
[xxii]. Rinard, P. M.; Quarks and Boscovich, Am. J. Phys. 1976, 44, 7, 704.
[xxiii]. (The nature of cohesion has been more happily explained by Boscovich than by any other philosopher. Indeed it forms the most beautiful and satisfactory part of his theory). Thomson, Thomas; A System of Chemistry in For Volumes, 5a Ed., Londres, 1818 apud Rooney, R.; Roger “Boscovich and the Development of Chemical Theory”, J. Chem. Educ. 1985, 62, 10, 848.
[xxiv]. Udías, S. J., Agustín; Serving God and Science, Astronomy and Geophysics 2001, 42, 2, 23.
[xxv]. Udías, S. J., Agustin; Jesuits’s Contribution to Meteorology, Bull. Amer. Meteor. Soc. 1996, 77, 10, 2307.
[xxvi]. Narlikar, J. V.; Abbe’ Georges Lemaître: Father of the Primeval Atom, Curr. Sci. 1994, 67, 12, 950.
[xxvii]. Fodstad, H.; Hariz, M. I.; Hirabayashi, H.; Ohye, C.; Barbarian Medicine in Feudal Japan, Neurosurgery2002, 51, 4, 1015.
[xxviii]. Frada, J. J. C.; História, Medicina e Descobrimentos Portugueses: http://www.instituto-camoes.pt/cvc/bvc/revistaicalp/histmeddescpt.pdf, acessado em 11 de setembro de 2005.
[xxix]. Cabral, S. J., L. G.; Jesuítas no Brasil (Século XVI), vol. III, Companhia Melhoramentos: São Paulo, 1925, cap. 3.
[xxx]. Cabral, S. J., L. G.; Pátria e Religião, Sta. Rosa: Nictheroy, 1922, p. 8 apud Cabral, S. J., L. G.; Jesuítas no Brasil (Século XVI), vol. III, Companhia Melhoramentos: São Paulo, 1925, cap. 3.
Título Original: Épocas Obscuras?
Foto: Web
Site: Montfort
Editado por Henrique Guilhon

O Batismo no começo da Igreja

Prof. Felipe Aquino
A Igreja, nos primeiros séculos, ministrava numa única celebração, para os adultos e crianças, três Sacramentos: Batismo, Crisma e Eucaristia. Para os adultos havia uma preparação de três anos, o catecumenato. Na vigília pascal o catecúmeno recebia os três Sacramentos.
Muitos são os documentos e citações que narram o Batismo dos primeiros séculos. Vamos conhecer algumas citações importantes dos “Padres da Igreja”, que nos esclarecem muitas coisas. Esses Padres foram os grandes homens que formularam a fé católica, desde os Apóstolos, enfrentando as heresias e os cismas. Entre eles estão S. Jerônimo, S. Basílio Magno, S. Gregório Magno, S. Agostinho, S. Irineu de Lião etc. É interessante e importante conhecer um pouco do que esses pais da Igreja escreveram sobre Batismo nos primeiros séculos da Igreja.
Tertuliano († 220), que foi bispo em Cesareia, escreveu no século III o “Tratado sobre o Batismo”, que fornece informações importantes. Ensina que “os catecúmenos deviam invocar Deus em orações fervorosas, com jejuns, genuflexões e vigílias”. O ministro, o bispo, na vigília pascal, benzia a água; o catecúmeno renunciava ao demônio; a seguir, o ministro perguntava: “Crês em Deus Pai?” Após a resposta afirmava do catecúmeno, mergulhava-o na água; interrogava ainda: “Crê em Deus Filho?” e “Crês em Deus Espírito Santo?”, seguindo-se a cada resposta um mergulho na água. Depois ele era ungido com óleo e recebia a imposição das mãos, pela qual se comunicava o Espírito Santo.
Santo Hipólito de Roma († 235) descreveu sobre o Batismo, com detalhes, em sua Tradição Apostólica:
“Ouçam os catecúmenos a palavra durante três anos… escolhidos os que receberão o Batismo, sua vida será examinada: se viveram com dignidade enquanto catecúmenos, se honraram as viúvas, se visitaram os enfermos, se só praticaram boas ações… Aproximando-se o dia em que serão batizados, exorcize o bispo cada um… Jejuem na véspera do sábado os que receberão o Batismo… Ordene-se a todos que rezem e se ajoelhem; impondo-se sobre eles as mãos, exorcizará o bispo todos os espíritos estranhos para que fujam e não tornem jamais; ao terminar o exorcismo, sopre-lhes no rosto. Depois de marcar-lhes com o sinal da cruz a fonte, os ouvidos e as narinas, ele os fará levantar-se… Ao cantar do galo, reze-se primeiro sobre a água, na fonte ou derramando-se do alto… Em caso de necessidade usa-se a água que se encontraram… Os batizados despirão as suas roupas, batizando-se primeiro as crianças. Todos os que puderem falar por si mesmo falem. Os pais, ou alguém da família, falem pelos que não puderem falar por si. Batizem-se os homens e finalmente as mulheres…”
Esta longa descrição de como era ministrado o Batismo, e que continua, mostra que este Sacramento era ministrado na madrugada do domingo, após um dia inteiro de orações, leituras e jejum; a preparação era longa, com anos de instrução e exorcismos (não de processos); batizavam crianças que ainda não tinham idade para falar; a unção do óleo após o Batismo equivale ao Sacramento da Crisma.
São Justino Mártir, († 151), I Apologia 61:
“Os que são batizados por nós são levados para um lugar onde haja água e são regenerados da mesma forma como nós o fomos. É em nome do Pai de todos, de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo que recebem a loção na água. Este rito foi-nos entregue pelos Apóstolos”.
Didaquè – A Doutrina dos Apóstolos, o primeiro “catecismo” da Igreja (ano 100):
“Quanto ao Batismo, batizai assim: depois de terdes ensinado o que precede, batizai em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, em água corrente; se não existe água corrente, batize-se em outra água. Se não puder ser em água fria, faze em água quente. Se não tens bastante, de uma ou de outra, derrama água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes do Batismo, jejuem: o que batiza, o que é batizado e outras pessoas”.
Aqui se vê claramente que desde o primeiro século a Igreja já ministrava o Batismo por efusão (derramamento de água) e não apenas por imersão (mergulho na água).
Santo Ireneu (140-202), que foi bispo de Lião:
“Jesus veio salvar a todos os que através dele nasceram de novo [pelo Batismo] de Deus: os recém-nascidos, os meninos, os jovens, os velhos”.
“O Batismo nos concede a graça do novo nascimento em Deus Pai os que têm o Espírito Santo. Pois os que têm o Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho; mas o Filho os apresenta ao Pai, e o Pai lhes concede a incorruptibilidade. Portanto, sem o Espírito Santo não é possível ver o Filho de Deus, e, sem o Filho, ninguém pode aproximar-se do Pai, pois o conhecimento do Pai é o Filho, e o conhecimento do Filho de Deus se faz pelo Espírito Santo” (Dem. 7).
Orígenes – bispo de Alexandria (184-285):
“A igreja recebeu dos Apóstolos a Tradição de dar o Batismo também aos recém-nascidos” (Ep. Ad. Rom. LV, 5,9).
São Cipriano, bispo de Cartago (210-258):
“Do Batismo e da graça não devemos afastar as crianças” (Carta a Fido).
Note que desde o século II já há uma comprovação de que a igreja batizava os recém-nascidos, como continua a fazer hoje.
Santo Hilário (310-367):
“Tudo o que aconteceu com Cristo dá-nos a conhecer que, depois na imersão na água, o Espírito Santo voa sobre nós do algo do Céu e que, adotados pela Voz do Pai, nos tornamos filhos de Deus” (Mat. 2).
O Concílio de Cartago (ano 418), que condenou o pelagianismo, rejeitou a posição “daqueles que negam que se devam batizar as crianças recém-nascidas do seio materno” (Cânon 2, DS, 223).
O Concílio de Florença (ano 1442), exigiu que fosse administrado o Batismo aos recém-nascidos “o mais depressa que se possa fazer comodamente” (DS. 1349).
Retirado do livro: “Batismo” – Coleção Sacramentos. Prof. Felipe Aquino. Ed. Canção Nova.
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Sobre Prof. Felipe AquinoO Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
Site: Cléofas
Editado por Henrique Guilhon

Compreenda o significado das tradições que envolvem o natal

Foto Ilustrativa: Monique Oliveira

Formação Canção Nova

Os símbolos e tradições pertencentes ao Natal
As origens de muitas tradições que caracterizam as celebrações modernas do natal perdem-se nos tempos. No entanto, é possível identificar algumas raízes pagãs e romanas da festa católica do Natal.
Os povos primitivos tinham rituais marcados pelas estações do ano e em Dezembro era a altura do solstício de Inverno, ou seja, o período mais frio do ano chegava a meio e, a partir daí, os dias ficam maiores e mais quentes. Para comemorar essa data, era organizada uma grande festa que poderia durar vários meses. Os países nórdicos vieram acrescentar alguns traços importantes a essa celebração como a figura do Pai Natal, cujas origens remontam a esse período.
O Natal
A influência dos romanos faz-se sentir através de outra celebração em honra do deus romano Saturno, cujas festas eram um dos pontos altos do ano. A bebida, a comida e os divertimentos abundantes caracterizavam este período em que os rigores do Inverno eram esquecidos por alguns dias.
celebração religiosa do Natal só foi iniciada no século IV quando o Papa Júlio I levou a cabo um estudo exaustivo sobre a data de nascimento de Jesus Cristo e acabou por estabelecer oficialmente o dia 25 de Dezembro para as comemorações. Posteriormente, outras celebrações que tinham por base rituais pagãos ou romanos foram adaptadas e transformadas para se inserirem no âmbito das comemorações cristãs.
Elementos natalinos
Uma das tradições mais marcantes do natal é a Árvore de Natal. O culto da natureza dos tempos pagãos está sem dúvida na origem da celebração da árvore, embora esta só tenha sido adaptada oficialmente para as celebrações na Alemanha em 1539. Mais tarde, a árvore passou para todo o mundo, principalmente através dos casamentos celebrados entre famílias reais e que levaram a uma propagação do costume a outros países europeus e depois ao resto do mundo através da colonização.
O elemento religioso foi introduzido através da escolha de motivos piedosos para a decoração das árvores como as velas (atualmente luzes elétricas), os anjos e a estrela, que é de costume colocar no topo e que representa a Estrela de Belém que terá guiado os Reis Magos. Na maioria dos países, a árvore utilizada é um abeto, uma árvore de folha perene que se mantém viçosa no Inverno, mas, em Portugal, o pinheiro é mais utilizado por ser mais vulgar no nosso tipo de clima.
O Pai Natal é uma figura importante em qualquer celebração de Natal e a sua origem é bastante antiga. Nos países nórdicos, era costume alguém vestir-se com peles e representar o ‘Inverno’. Essa figura visitava as casas e ofereciam-lhe bebidas e comidas, pois acreditavam que se o tratassem bem a sorte iria abençoar a casa. Mais tarde, o Pai Natal, velhote, boémio, alegre e robusto foi associado à figura de São Nicolau. Este bispo turco teve um percurso característico, tendo ajudado os pobres e as crianças, oferecendo-lhes presentes e dinheiro. A sua generosidade deu origem a lendas segundo as quais ele visitaria a casa das crianças no dia 6 de Dezembro para lhes deixar presentes.
Mais tarde, as duas figuras foram associadas, embora apenas no século XIX é que tenha surgido uma imagem definida do Pai Natal. O norte-americano Clement Moore escreveu um poema em 1822 intitulado «Uma Visita de São Nicolau» em que descrevia em pormenor a figura e, desde então, tem sido essa a imagem utilizada: um velhote gordinho e alegre, que se desloca num trenó puxado por oito renas e que entra em casa pela chaminé. Um aspecto curioso da figura é que a cor definitiva dos trajes do Pai Natal é bastante, mais recente do que se imagina e tem uma origem pouco ortodoxa. Nos anos 30 do século XX, a Coca-Cola contratou um publicitário para criar a imagem da marca para a campanha de Inverno. Deste modo, as cores da empresa ficaram associadas para sempre à figura do Pai Natal, o encarnado e o branco.
Os presentes de Natal já se tornaram um ritual obrigatório. E embora sejam apontados motivos religiosos para a oferta de prendas, ela tem raízes mais antigas. Em Dezembro, estando já passada a primeira metade dos rigores do Inverno, a celebração era pontuada por um grande consumo de alimentos. Como cada agricultor tinha uma especialidade própria, surgiu a tradição de trocar produtos, de forma a que todos pudessem consumir alguma variedade. Os romanos reforçaram este hábito, aumentando o volume e o valor das ofertas. Mais tarde, os cristãos adaptaram este costume, simbolizando a oferta de presentes o altruísmo do ideal católico, patente nos presentes trazidos pelos Reis Magos ao Menino Jesus.
presépio de Natal é uma tradição antiga, surgiu no século XIII, e ainda hoje se cumpre na maior parte dos lares. As primeiras imagens que representam a Natividade foram criadas em mosaicos no interior das igrejas e templos, remontando ao século VI. São Francisco começou a divulgar a ideia de criar figuras em barro que representassem o ambiente do nascimento de Jesus. O primeiro presépio foi construído por São Francisco em 1224, tendo sido celebrada uma missa que foi descrita como tendo um ambiente verdadeiramente divino. A partir dessa altura, a ideia foi-se propagando para os conventos e casas nobres, onde as representações se tornavam cada vez mais luxuosas.
Os cartões de Natal são outro dos aspectos importantes da quadra natalícia e foram criados há relativamente pouco tempo. Foi um inglês, Henry Cole, que foi responsável pela criação desta forma original de enviar votos de boas festas pelo correio. A inovação surgiu devido à substancial redução que os custos do envio de correio sofreram em meados do século XIX. Desta forma, era acessível a todos o envio das felicitações. Embora a tradição religiosa tivesse demorado algum tempo a habituar-se a este costume, ele é bastante popular hoje em dia.
Equipe de Colunistas do Formação
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A solenidade de Cristo Rei

 
Cléofas
Jesus afirmou que é Rei, mas não deste mundo. Quando Pilatos o interrogou, “És porventura rei?”, Ele respondeu: “Sim, eu sou rei!” (Jo 18,37). Mas, “meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado, para que eu não fosse entregue aos judeus” (Jo 18,36). O Reino de Cristo é o Reino dos Céus; que Ele veio inaugurar, e disse que “já estava no coração” dos homens. Ele quer reinar em nós, não no mundo. Ele quer o nosso coração, nada mais.
Cristo não reina na glória e no poder dos homens, mas nos corações dos “pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”. Ele reina nos mansos, nos pacíficos, nos construtores da paz, nos puros de espírito, nos misericordiosos, nos que sabem perdoar, enxugar as lágrimas dos irmãos, dos aflitos, dos que têm sede e fome de justiça, dos que são perseguidos por causa Dele.
Ele é Rei porque venceu; não no triunfo do poder humano, mas na vitória contra o Mal e contra o pecado e morte: “Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o Nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor” (Fp 2,8-11).
Logo no início o livro do Apocalipse revela a Majestade do grande Rei: “Jesus Cristo, testemunha fiel, primogênito dentre os mortos e soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai, glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém. Ei-lo que vem com as nuvens. Todos os olhos o verão, mesmo aqueles que o traspassaram. Por sua causa, hão de lamentar-se todas as raças da terra. Sim. Amém. Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, Aquele que É, que era e que vem, o Dominador” (Ap 1,5-8).
“O seu rosto se assemelhava ao sol, quando brilha com toda a força… Eu sou o Primeiro e o Último, e o que vive. Pois estive morto, e eis-me de novo vivo pelos séculos dos séculos; tenho as chaves da morte e da região dos mortos” (Ap 1,16-18).
Ele é Aquele que “segura as sete estrelas na sua mão direita” (Ap 2,1); “que tem a espada afiada de dois gumes” (2,12); “que tem os olhos como chamas de fogo” (2,18); “Aquele que tem a chave de Davi – que abre e que ninguém pode fechar; que fecha, e ninguém pode abrir” (3,7); “o princípio da criação de Deus” (3,14). “Ele é Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi” (5,5).
Os anjos cantam sem cessar: “Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor” (5,12). “E todas as criaturas do céu e da terra, debaixo da terra e no mar, e tudo que contém, clamam: “Aquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos. Amém!” (5,11-14). Por isso o povo canta com alegria: “Ao que está assentado no trono e ao Cordeiro seja o louvor, seja a honra, seja a glória, seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém!”
Esse é nosso Rei e Senhor; um Rei diferente. Seu reinado é diferente; seu berço foi um cocho; sua casa foi um buraco na rocha; seu púlpito um barco, sua corte a natureza, seu veículo um jumentinho, sua glória é servir e seu trono é a Cruz. Que Rei diferente! Mas é Dele o Reino dos Céus, que “olhos humanos jamais viram, ouvidos humanos jamais ouviram e coração humano jamais sentiu, o que tem preparado para os que o amam” (1 Cor 2,9).
Mas, por ser o “Rei dos Reis”, Ele é exigente, e tem que ser mesmo. Como o seu Reino se assenta em nosso coração, Ele não aceita dividi-lo com outros reis. Ele exige a renúncia ao nosso eu que quer tomar o Seu lugar no trono do nosso coração. “Renuncie a ti mesmo, tome a cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23). Perca a sua vida para ganha-la. É um Rei que sabe o que quer; e sabe que nos quer dar o melhor; a alegria eterna e infinita; por isso arranca dos nossos corações os falsos reis.
Esta é a nossa grande decisão: a que rei vamos entregar o nosso coração?
Prof. Felipe Aquino
Sobre Prof. Felipe AquinoO Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
Título Original: Jesus, Rei dos Reis
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